20 abril 2015

minha cabeça é como uma moto

não me lembro da cor do ferro de passar roupa. chuto branco com azul. tampouco decorei seu lugar de descanso: talvez dentro da portinha lateral, perto da parede.

o embrutecimento apagou muitas informações da minha surrada cabeça que, com o tempo, passou a nutrir certas obsessões, como salvar fotos de pessoas vendendo roupas na internet. não são quaisquer fotos. só salvo imagens com animais. o critério para a roupa é zero. só o que importa é a existência do bicho nela. um sapato boneca vermelho escuro com um gato ao fundo. um casaco de lã verde clarinho e um shih tzu dormindo na poltrona. “vendo mala de viagem com rodinhas. R$ 70 negociáveis. entrego na linha verde. o cachorrinho da foto não vai junto rsrs”, diz o anúncio. por que o animal está lá? se o animal não está a venda, por que ele está lá? ele quis estar lá? você mexeu na cena? você colocou um bicho estrategicamente para a sua foto chamar mais atenção? você é algum tipo de profissional do anúncio? você sempre vende coisas na internet? você poderia me dar algumas informações sobre o seu bichinho de estimação? são tantas as perguntas que rodam dentro da minha cabeça, mas não posso levá-las adiante porque seria duma neura desproporcional dividir isso com os anunciantes. 

lembro da batedeira. é preta e prata. nunca foi usada. está no móvel em cima da geladeira. talvez mais pra esquerda.

doentíssima e prestes a explodir durante um trabalho acadêmico, recorri ao hospital público da lapa para tomar uma injeção que me tirasse do limbo. bolotas brancas de pus recheavam minhas amídalas [“amídala” é uma palavra tão feminina]. quando adentrei a casa das injeções, um enfermeiro de uniforme verde-cor-de-hospital limpava grandes facas que respingavam sangue debruçado no que parecia ser uma pia de açougue. não era exatamente isso, mas era assim que meu estado febril e confuso via a vida naquele momento. o sujeito passou a perguntar coisas desconexas e desinteressantes sobre a minha manga oriental no braço esquerdo, outra coisa que constantemente me esqueço de ter. esse desenho está há dez anos no meu braço. é difícil responder se “doeu”. doeu, caralho, mas faz dez anos. dou respostas genéricas: “ah, doeu, mas faz tempo”. precisei ser razoavelmente polida. “benzetacil dói muito? minha mãe nunca me deixou tomar porque dizia ser 'injeção para cavalo'”, mandei. verdade pura que nunca soube o que minha progenitora queria dizer com essa enigmática e animalesca expressão. e verdade pura 2 que mamain nunca me deixou tomar a tal injeção. “arde um pouquinho”, disse o homem.

"benzetacil dói muito?"

confiei. humildemente, ofereci minha nádega esquerda (sempre a esquerda). enquanto o homem descrevia seus planos para próximas tatuagens, subi minha calça jeans atordoada e com o buço repleto de gotículas de suor sofrido. em slow motion, o enfermeiro me atormentava com desenhos, dragões, verdes e azuis, vizinho tatuador, paguei 200 nessa, mas o traço ficou grosso, fiz o símbolo do corinthians. e, como se uma multidão batesse palmas ritmicamente dentro da minha cabeça ovalada, eu piscava devagar e sorria amarelo para o bolo de informações verbais e intramusculares que me eram enfiadas simultaneamente.

saí do hospital meio sorridente. peguei um ônibus para ir até a puc. quando desci na cardoso de almeida – a clássica rua transeunteada por estudantes angustiados com baixo salários de estágio e cheios de pressão e expectativa por parte de pais opressores e donos de veículos monstruosamente grandes (não era o meu caso, bolsista filha de pais sem curso superior ou carro) –, uma chuva torrencial caiu. caiu. uma chuva tremenda. avassaladora. em cima de mim, cheia de antibiótico dentro da bunda e da alma. e como uma espécie de protagonista dum clipe imaginário de segue o seco, da marisa monte, me entreguei com lassidão à água gelada parida pelo céu.

chegando na ilha de edição da faculdade, o sujeito que ajeita as coisas tuda pros alunos parecia desconfortável ao me fitar ensopada. quis me emprestar sua jaqueta de couro. falei que não precisava. com naturalidade e um fôlego inexplicável, eu tirava as botas de caúboi e as meias enquanto ele ligava o computador. “vou ficar bem. tomei uma benzetacil”, expliquei (querendo me exibir um pouco pela coragem) enquanto sorria leve. atônito, ele me deixou na salinha cafona com ares de anos 90 e paredes de fórmica amarelada – um lugar zero inspirador. doenta e contenta, fiz o que tinha de fazer. a vida me secou.


a vida me secou. 

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