26 março 2011

pensando e conversando

quero fumar
perdi meu isqueiro
roubaram meu fósforo
malditas festinhas


o busum
tá lotado, tô pensando no preço do cigarro e do pão, fazendo as contas de cabeça, segurando os cadernos, a bolsa, a blusa, o guarda-chuva, o bilhete único, louvando a poesia (que há de resistir!), tamborilando pelos canos suados do busão, um bafo quente degradante - é só chover e todas as pessoas fecham a janela sem deixar sequer uma fresta de ar para os reles mortais do corredor. uma moça sentada pergunta se quero que ela segure meus cadernos e eu, que também não quero atrapalhar, digo que não e agradeço. troco de faixa no ipod, desejo um gole de coca-cola, puts, aula de teologia daqui a pouco. três reais pra andar nessa coisa capenga, cheia de gente suada respirando o mesmo ar, um aperto da moléstia. faço mais contas, preciso voltar a pagar o plano de saúde embora a dor nos pés tenha diminuído. não li o texto pra aula, agora que lembrei.

em casa
volto ao presente, ao agora intransponível, aqui, onde estou, sentada em cima de minhas pernas, equilibrando minha coluna, mantendo meu pescoço de pé. penso que te amo. que queria te ver dormir agora. te ver reclamando meio sonâmbulo, passar a mão na sua testa e depois dar um beijinho curto. queria poder escrever com você ao meu lado. são quatro e quarenta e quatro da manhã e como hoje é sábado estou me permitindo esse tempo solto pra exercer minhas ideias. às vezes eu não sei o que sou. simplesmente não sei o que sou. sem grilos. sem viagem. só não sei. tô tomando coca-cola e ouvindo love songs dos anos 70. aquelas coisas bem groovadinhas, com vozes femininas e masculinas (negros e seus timbres divinos, ai!), muitos backing vocals, guitarrinhas trêmulas. amanhã vou te mostrar. se bem que esqueci o ipod no trabalho. mas eu sei que você vai gostar. certeza. eu, definitivamente, não te conheci ontem. aliás, menino, arrisco dizer que te conheço melhor que qualquer pessoa. porque conheço o desenho das tuas costas, suas cicatrizes, aquele pelinho solto que a gente chama de maurício e a exata textura da sola do seu pé (pezinho, né). sei porque observo. porque quando você dorme, eu te fotografo mentalmente. eu gravo teu cheiro. gosto muito do teu cheiro. é um cheiro que nenhum outro cara tem.

o que tá rolando agora é "i'll catch you when you fall" de laura lee. cafona? que nada. obra-prima. no segundo 00:47 começa a foder e no 1:02 me arrepio. ouve depois. sei que vai acordar cedo pra cobrir a manifestação amanhoje (porque madrugada nunca é hoje e nunca é amanhã). mas depois eu quero te ver e te beijar. porque eu tô acordada, ouvindo um som, com o meu abajur laranja de sempre e com a luminária-usb que você me deu. ela é realmente ótima! caralho, toda vez que as backing vocals esticam o backing e ela entra no refrão rasgando e caindo, parece uma cachoeira. musicão. vou enviar um comentário pro maninho que postou o vídeo. fazendo um balanço fica tudo tão louco, não fica? a impressão que tenho é que éramos duas crianças perdidas da mãe no parque ou no shopping (você sempre dá o exemplo do shopping). daí você me deu a mão. eu nunca te disse, mas é por isso que me identifico tanto com a lavínia. porque você é um pouco meu caubi e eu sou um pouco a tua flor distraída. me dá vontade de chorar quando penso na parte que ela está toda cagada com o casaco dele, tomando chá, se não me engano. eu sabia que era ali que ela ia embora. e talvez tenha sido a primeira vez que chorei lendo um livro. quando nós dois temos conversas mais existencialistas eu desenho como era minha vida antes de você... pseudoindiedepressiva que não era feliz com ninguém, em nenhum aspecto. eu gostava do flerte, da diversão. mas na hora de dormir ficava um buraco dentro do peito, uma ardência chata que me incomodava. minha mãe sempre foi maravilhosa. mas acontece que ela teve dois homens antes de mim e se acomodou à situação de ser mãe de homens, simplesmente. isso me deixava insegura, com medo. e essa coisa de melhor amiga funcionou até a quarta-série só. detesto culpar os meus pais por qualquer coisa. mas eu fui deixada no meu mundinho. demais. passava madrugadas escrevendo cartas, vendo tv. eu tive que ser adulta quando perdemos tudo, eu tive que mudar de colégio, de casa, de amigos, de fantasias, de realidade, tantas vezes. sem contar as minhas frustrações e traumas diversos que você aguentou bravamente, sempre. e, quantas&quantas vezes, os dois ao chão, sobrevivendo e acreditando no arco-íris depois da chuva?


estou realmente emocionada escrevendo. porque escrever me emociona, é simples. me emociona. e sabe? nunca usei esse termo "emocionar/emocionada" até o dia que, depois de muitas crises, você resolveu largar o direito e pediu demissão. te liguei, um tanto inocente, achando que você estaria vibrando, aliviado e perguntei "o que foi, meu doce? por que você está com essa voz?" e você falou meio pra dentro, engasgado, com a voz trêmula e começando a chorar "porque eu estou emocionado........"


eu, agora, não sei te dizer quantas vezes mais te amei naquele momento.




é.


ouvindo a mesma música ainda.

pensando em nós dois.

obrigada por ter me tirado do jardim e me colocado na sua lapela.

Um comentário: