09 abril 2016

aqueles cachorros não me faziam feliz

vi fotos dela dia desses e, claro, ontem sonhei. apareceu pra mim com o cabelo sujo, óleo puro, e cara de coitada. escreveu seu nome num pedaço de embalagem de escova de dentes seguido por “colou aqui”. essa era a mensagem. ela estava lá. soube por outrem que apareceu em casa porque pediu pra passar por baixo da catraca no metrô. sem grana, supus. estávamos sendo formalmente apresentadas. pela vida, não por alguém. já sabíamos uma da outra.

me trouxe presentes: dois cães pequenos e estranhos. um deles de pelo áspero e levemente caolho. o outro, um vira-lata diminuto, quase chihuahua. amante de bichos, não senti nada. aqueles cachorros não me faziam feliz. mistério impermisto. desconcertante.

então afeita à ideia de cuidar de novos filhos, convidei os dogs para a realização de suas tarefas fisiológicas naturais. “vamos fazer xixi.” ambos subiram no sofá forrado por um lençol velho e cafona e mijaram ali mesmo. muito. litros de mijo amarelo.

instantaneamente, a raiva me subiu pela carcaça. corri atrás dela, que provavelmente planejou a mijada para me desarranjar emocionalmente. cadê, cadê você. encontrei-a no topo de um prédio. o dia estava cinza, os ares bagunçados. ela parecia usar pijamas. ainda com cara de coitada, só que agora com a pele mais amarela ainda. e acordei.

outro dia, um amigo me mandou oi pelo whatsapp e o auto corretor trocou “débora” por “densidade”. algo no ar me sugere feito vento no nariz que, costumeiramente burra, a máquina acertou na sugestão. vez em vez é muita noia. guenta.


04 janeiro 2016

na mente, sentido leme

a caravana segue enxuta, com um quórum significativo e potente, porém menor. não há problema agora. todos eles passaram – e, hoje, reluzem à sombra do quase-esquecimento e das memórias indeléveis. foda-se.

de vestido e pernas cruzadas respondo às questões do analista, sempre abertas. minhas respostas são longas. teimo em afirmar meus “quase 30”, mas ainda estou na casa dos 20. tento também não nomear o gado, mas a história fica confusa. vez ou outra repito o perfil da vítima.

– quem tira o seu sono?

– ninguém.

e se insistentemente vem à mente cheiros, nomes e horrores, pego um papel toalha e um veja, saio limpando qualquer coisa, acendo um cigarro. bem tranquila prum biótipo astral áries em leão. dá até orgulho.

esse recibo não assino. só pra ele, que me pega desprevenida em lágrimas, aterrorizada. pra ele, sim.

rezo mentalmente: vamos ali no BRS 3 pegar o 472 sentido praia do leme.

e se na noite anterior levantei de supetão dum sonho ruim, foi prazer total ver o céu ir do escuro ao lilás. enrolada no cobertor em pleno verão. são paulo é bipolar.


eu sigo em frente. e vou a pé só pra apreciar o caminho.

20 abril 2015

minha cabeça é como uma moto

não me lembro da cor do ferro de passar roupa. chuto branco com azul. tampouco decorei seu lugar de descanso: talvez dentro da portinha lateral, perto da parede.

o embrutecimento apagou muitas informações da minha surrada cabeça que, com o tempo, passou a nutrir certas obsessões, como salvar fotos de pessoas vendendo roupas na internet. não são quaisquer fotos. só salvo imagens com animais. o critério para a roupa é zero. só o que importa é a existência do bicho nela. um sapato boneca vermelho escuro com um gato ao fundo. um casaco de lã verde clarinho e um shih tzu dormindo na poltrona. “vendo mala de viagem com rodinhas. R$ 70 negociáveis. entrego na linha verde. o cachorrinho da foto não vai junto rsrs”, diz o anúncio. por que o animal está lá? se o animal não está a venda, por que ele está lá? ele quis estar lá? você mexeu na cena? você colocou um bicho estrategicamente para a sua foto chamar mais atenção? você é algum tipo de profissional do anúncio? você sempre vende coisas na internet? você poderia me dar algumas informações sobre o seu bichinho de estimação? são tantas as perguntas que rodam dentro da minha cabeça, mas não posso levá-las adiante porque seria duma neura desproporcional dividir isso com os anunciantes. 

lembro da batedeira. é preta e prata. nunca foi usada. está no móvel em cima da geladeira. talvez mais pra esquerda.

doentíssima e prestes a explodir durante um trabalho acadêmico, recorri ao hospital público da lapa para tomar uma injeção que me tirasse do limbo. bolotas brancas de pus recheavam minhas amídalas [“amídala” é uma palavra tão feminina]. quando adentrei a casa das injeções, um enfermeiro de uniforme verde-cor-de-hospital limpava grandes facas que respingavam sangue debruçado no que parecia ser uma pia de açougue. não era exatamente isso, mas era assim que meu estado febril e confuso via a vida naquele momento. o sujeito passou a perguntar coisas desconexas e desinteressantes sobre a minha manga oriental no braço esquerdo, outra coisa que constantemente me esqueço de ter. esse desenho está há dez anos no meu braço. é difícil responder se “doeu”. doeu, caralho, mas faz dez anos. dou respostas genéricas: “ah, doeu, mas faz tempo”. precisei ser razoavelmente polida. “benzetacil dói muito? minha mãe nunca me deixou tomar porque dizia ser 'injeção para cavalo'”, mandei. verdade pura que nunca soube o que minha progenitora queria dizer com essa enigmática e animalesca expressão. e verdade pura 2 que mamain nunca me deixou tomar a tal injeção. “arde um pouquinho”, disse o homem.

"benzetacil dói muito?"

confiei. humildemente, ofereci minha nádega esquerda (sempre a esquerda). enquanto o homem descrevia seus planos para próximas tatuagens, subi minha calça jeans atordoada e com o buço repleto de gotículas de suor sofrido. em slow motion, o enfermeiro me atormentava com desenhos, dragões, verdes e azuis, vizinho tatuador, paguei 200 nessa, mas o traço ficou grosso, fiz o símbolo do corinthians. e, como se uma multidão batesse palmas ritmicamente dentro da minha cabeça ovalada, eu piscava devagar e sorria amarelo para o bolo de informações verbais e intramusculares que me eram enfiadas simultaneamente.

saí do hospital meio sorridente. peguei um ônibus para ir até a puc. quando desci na cardoso de almeida – a clássica rua transeunteada por estudantes angustiados com baixo salários de estágio e cheios de pressão e expectativa por parte de pais opressores e donos de veículos monstruosamente grandes (não era o meu caso, bolsista filha de pais sem curso superior ou carro) –, uma chuva torrencial caiu. caiu. uma chuva tremenda. avassaladora. em cima de mim, cheia de antibiótico dentro da bunda e da alma. e como uma espécie de protagonista dum clipe imaginário de segue o seco, da marisa monte, me entreguei com lassidão à água gelada parida pelo céu.

chegando na ilha de edição da faculdade, o sujeito que ajeita as coisas tuda pros alunos parecia desconfortável ao me fitar ensopada. quis me emprestar sua jaqueta de couro. falei que não precisava. com naturalidade e um fôlego inexplicável, eu tirava as botas de caúboi e as meias enquanto ele ligava o computador. “vou ficar bem. tomei uma benzetacil”, expliquei (querendo me exibir um pouco pela coragem) enquanto sorria leve. atônito, ele me deixou na salinha cafona com ares de anos 90 e paredes de fórmica amarelada – um lugar zero inspirador. doenta e contenta, fiz o que tinha de fazer. a vida me secou.


a vida me secou. 

01 abril 2015

la barca

ela limpou os restos de um batom rosa feio (que não saiu dos lábios nem depois de uma lata inteira de coca) com o guardanapo, tirou da bolsa uma bic com a tampa toda mordida, escreveu um troço e me deu. "lê depois."

quando entrei no ônibus, abri o papel:

nunca mais fui bonita. nunca mais fui feliz.

25 novembro 2014

principalmente em 1987

sou uma pessoa sem lençóis. chego a botar o lençol úmido, recém-tirado do varal, na cama da gata-garota pois não tenho outro. essa música. muitas mulheres choraram sozinhas em seus quartos ouvindo essa música. principalmente em 1987. fazia todo sentido. uma chorou porque jorge convidou a secretária para ir ao barzinho. outra chorou porque o professor da faculdade não entendeu seu texto cheio de manha. tudo isso dói. besteira pura, você pensa, mas você está sempre errado. você não ronrona, seu estômago não ronca. você sabe nada. nem amar você ama. seu timbre de voz irrita todo mundo no trabalho. você queima o macarrão. seu bocejo não tem febre. você não manja porra alguma da poesia das comidas queimadas.

também sou uma pessoa com cara de poucos amigos porque nenhum amigo me oferece um lençol. não é possível. não existe nenhum lençol velho por aí?

finjo que durmo. dou um ronrono, conto até três em silêncio. vejo esse abajur vermelho. esse abajur vermelho me vê. sinto uma onda de calor. a febre canta com voz de sereia dentro das estranhas entranhas. brinco de estar no mar. até pelada. eita que eita. de que adianta, criança, ter um chapéu em cima da pilha de roupas limpas? porque sou e estou completamente sozinha e com febre. me proponho a auto-sabotagem.

picolé de nuvem, que saudade do lençol de vento que você me comprou. ou nenhuma saudade. ou tudo.

03 novembro 2014

Ivanelson

Já nos primeiros passos pelo corredor de bebidas do supermercado, uma lágrima teima em querer sair dos meus olhos. Não sei se do direito ou do esquerdo. De fundo, uma música típica de comédia romântica, naquela cena meio triste em que o casal está separado, um pensando no outro.

Olho para os vinhos. Quero escolher um que custe mais de R$ 20 reais e menos de R$ 30. Uma embalagem de R$ 19,90 me chama a atenção, mas está abaixo do orçamento que estipulei, projetando qualidade e preço. Escolho uma garrafa chilena. A embalagem não tem nenhum toque especial, mas me parece agradável. A uva é Carménère. Tia Cynthia sempre escolhe essa uva e estamos falando de uma mulher de bom gosto.

Quando chego no corredor dos sucos, já não consigo controlar as lágrimas. Casais em dúvida entre o sabor de uva ou de maracujá me assistem chorando baixo. Não posso fazer nada. Mesmo assim, continuo escolhendo um suco que me agrade. Compro o da mesma marca de sempre, de pêssego.

Já passa da meia-noite, estou longe de casa e nesse momento me sinto classe média, com direito ao típico pensamento: “Eu trabalho demais. Foda-se. Eu mereço”. Chamo um táxi. O motorista está se formando em ciências contábeis esse ano. “Números...”, digo. E ele me explica que o curso é de humanas. Fico silenciosa porque o sujeito é um pouco grosso e destrambelhado. Estou frágil.

Ao chegar no meu prédio, o homem me ajuda com as compras. Seguro o portão enquanto ele carrega as sacolas. Insisto em ajudá-lo, mas ele diz “Por favor, não”. Seu cabelo é lambido de gel. Quando dou meu cartão para pagar a corrida, ele acrescenta R$ 2,50 "pelo uso do porta-malas”. Fico um pouco espantada. Nunca ouvi falar nessa taxa. Mas digo que tudo bem e ele passa o cartão. Eu já tinha mesmo pensando em dar uma caixinha.

Chego em casa. Lavo as coisas de geladeira, penso nas lindas perucas de RuPaul, como três bisnaguinhas com requeijão. A forma de gelo está imunda. Jogo os gelos sujos na pia, lavo o plástico e coloco uma nova água. Em tempos de seca, talvez eu tenha agido de maneira pouco ecológica. Mas gelo sujo é um trem esquisito por demais.

De repente, me admiro: a etiqueta do lava-arroz que comprei sai facilmente. Nela, está escrito “Super Feirão Ivanelson”. Não sei quem é Ivanelson, mas é um sujeito inteligente. Antigamente (usar essa palavra é saudoso), as etiquetas grudavam no plástico. Mesmo lavando, o saleiro ficava com restos do papel colado. Hoje, não. Hoje temos Ivanelson, que cria etiquetas que saem inteiramente e não grudam. Gostaria de parabenizar Ivanelson e sua delicadeza ao pensar no bem-estar de seus clientes.

Entre bobagens e plásticos, analiso minha vida. É engraçado como o sentimento de espanto passa a ser substituído por algo quase robótico, moderno, seco. É a vida, penso, enquanto concluo esse texto.



22 setembro 2014

batom não cura

ao som de canto de nanã ela passa um batom escuro na boca e se olha no espelho. o decote do vestido branco rendado mostra seu colo magro, jambo e ossudo. duro feito pedra. um peito sem leite. o outro com. ela se olha. vira. mede a bunda. sem pose. não tem paciência pra isso. apenas se olha. é mãe. é amante. ainda assim, é mais sozinha que a voz de um peregrino pedindo água no deserto. se deus existe que lhe ouça. porque essa mulher está triste. e o batom não cura.

21 junho 2014

sábados

te esperei na esquina da martins bonilha por mais ou menos quarenta minutos. foi novo porque é sempre você quem me espera. e lembrei do dia do café (quando a noite chegava). fazia tão pouco tempo e ali mesmo a vida já demonstrava o tamanho da merda que estava por vir. li todos os folhetos sobre a mulher e o islamismo. acabei botando de volta no livro. era da biblioteca. não sei de quem veio nem pra quem vai. aliás, nem te disse, mas rasguei um dos livros que você me deu. eu estava na página 89 e, quando virei para a 90, dei de cara com um bilhete.

sentir falta é um agente que impulsiona, confunde e me dificulta (tanto) a hierarquização dos sentimentos. te coloco na frente de tudo. não posso. sinto saudade. mas sei que você não sente.

“tú
que ayer sólo eras toda la hermosura
eres también todo el amor, ahora.”

P.

senti algo horrível. não sei se ciúme. algo mais próximo da raiva. e também porque eu sabia de quem era a citação. borges. não lembrava o poema, mas sabia que era dele. tinha certeza. nem conferi. até agora não conferi. e tenho certeza que é dele. passei boas semanas metida no livros dele pra desenvolver uma pesquisa no terceiro ano da faculdade. e uma única coisa me incomoda, me incomoda profundamente nessa citação: o poder da vírgula. a força. o significado. uma porrinha duma vírgula.

eres también todo el amor, ahora

sem essa vírgula a frase não teria o peso que tem. agora. você, que ontem era só toda a beleza, é também todo o amor, agora. você. amor. todo amor. agora. ou seja, agora você é todo o amor. quem é P? meu deus. quem é P? por que caralhos você me deu um livro seu com um bilhete de alguém dentro? geralmente, as pessoas sacodem seus livros antes de emprestá-los. isso é cuidado. mínimo cuidado com as suas coisas. ou melhor, com a sua intimidade. eu jamais daria ou emprestaria um livro que li com algo dentro. fosse um folheto sobre a mulher e o islamismo ou um bilhete de “amor”.

guardei o bilhete. mas rasguei o livro. piquei tudo. sem pudor. em papéis minúsculos. fui muito louca. sim. fui. rasguei tudo. se eu tivesse uma fogueira, metia o livro lá dentro. guardei o bilhete. está aqui. quero te devolver. imagino que P deva ter algum significado na sua vida. senti raiva de você, não de P (sei lá se é homem ou mulher). o bilhete é bonito. a letra é horrível. a minha letra é muito mais bonita.




mentira.

minha letra é horrível.





e é mentira que eu guardei o bilhete pra te devolver. eu rasguei junto com o livro.





desculpa.









06 junho 2014

botou o disco do lado errado deu nisso


ajeita o vestido
tá curto
olha ao redor
ninguém fuma
isqueiro
isqueiro

vai no boteco em frente
que cor?
a mulher pergunta
preto
R$3,50
bic

a capa do disco tem um homem fantasiado
e um anão
mas a trilha é outra
aquela
toda errada
ela

andou pela cidade
ouvindo mil vezes
a mesma

ajeita a saia
puta burrice andar de bicicleta e saia

saí
da bolha
do caos
do submundo
dos tubarões
das marajogatas
do calor eterno
da estrada
dos planos
da viagem
de ir ou ficar
no ivspisahlaarsdama

queimou tudo
a porra toda
fotos
poemas
discos
queimou tudo
a porra toda

em prol do sossego
do não-você
da ausência presente

orgulho
taí um sentimento imundo

falta de amor-próprio
taí a maior burrice humana

será
que já
parou
pra pensar
será

o taximental roda a cidade com o taxímetro desligado
já que o mundo parou tá sussa
nem vou pagar
nem vou pagar esse táxi
mas vou pegar
outro táxi
ir pra outra cidade
de táxi
ir pra europa
de táxi
foda-se a europa

vender sabonete
em cuba
vender fandangos
em afuá
vender o veneno do sapo
pro mundo todo
aí geral vai ficar bem lôca
quem sabe assim as pessoas não param de se matar
quem sabe assim as pessoas não criam coragem
culhão
de fazer o que quer
e gosta
poesia
rima
o caralho a quatro
fazer o que quer
fugir
construir asas
tipo o pai do ícaro
e depois
derreter a cera
a estrutura das asas 
o táxi roda
e roda
vai até a casa do caralho e volta
pra casa
o táxi sempre volta
pra casa

o coração é tipo uma garagem
abriga coisa importante
e abriga tralhas
várias delas
umas que você esquece
e lembra depois
outras que não servem pra nada
e você doa
ou bota no lixo

o taximental volta pra casa mas não volta pra garagem
o taximental quer fazer mestrado e dar aulas
o taximental quer ter um pássaro mas odeia gaiolas
o taximental quer aprender a fazer bolovo
o taximental quer conhecer o japão
o taximental quer festa de formatura
quer aprender a jogar bola e fazer pão
bolinho de chuva
cheirar cola
quer ser mendigo por um dia
se candidatar a vereador
quer ser uma urna eletrônica
quer conhecer a vegetal
e casar com ela
viu rodrigo
é bom mesmo que a tua personagem crie vida
porque o taximental já comprou as alianças
escolheu a música
e os músicos
todos estarão de gravata borboleta
a única comida será croquete
cocrete
e a bebida, tuchaua
o guaraná da nossa terra
diz a embalagem
mas nada de bolo
ou bem-casado
que aí já é muita palhaçada

o taximental é hermafrodita mas gosta de se fazer de machão
e coçar o saco a cada dois minutos e quarenta e quatro segundos

o taximental matou dois coelhos
com uma cajadada só

e agora nas festas juninas
aquela merda de brincadeira dos coelhos
eu tenho essa memória
quando estudava no santa amélia
tinha uma brincadeira do coelho
umas casinhas
e você tinha que saber pra qual casinha iria o coelho
se acertasse, ganhava um prêmio
não tem como saber qual casa o coelho irá escolher
só sendo o cérebro do coelho

o taximental foi na festa junina e quebrou tudo
a porra toda
jogou a panela de vinho quente no chão
botou fogo nos algodão-doce tudo
a criançada começou a chorar
um mano enorme chegou no taximental
e partiu pra porrada
grudou no pescoço
e o taximental tava nem aí 
o bolander colado tipo carrapato
e o taximental rasgava as bandeirinhas
mandava todo mundo ir tomar no cu
jogou pipoca no chão
estourou todos os balões de gás hélio
eita como a molecada chorava

taximental
você
é 
atroz
você
é
um homem
mal

agora sinto raiva de você
porque você acabou com a festa junina da galera
então vou escrever o teu nome errado
teu merda

o tamixental voltou pra casa
mas a casa não tinha garagem
dormiu no sereno
de boa
sem nenhum peso na consciência
ficou pensando no menor slam do mundo
e quis fazer slams político-sociais
vou ganhar essa porra
pensou
arrogantasso

o maxitemal ficou duas semanas sem cagar
e três dias sem beber nenhum líquido
mas nunca deixou de rezar
toda noite antes de dormir ele reza
reza reza reza
sempre

o tmaentalix ouve a mesma música todo dia
que é pra sofrer
sofrer de amor
ele manda sms pros amigos
e diz
ESTOU SOFRENDO DE AMOR

ninguém nunca responde
e mesmo assim ele continua enviando sms
às vezes liga pro seu broder mais próximo
alô
ESTOU SOFRENDO DE AMOR
e desliga
só queria mesmo propagar esse sofrimento sofrido
que é o amor

o xamneital não está curtindo o fato deu escrever o nome dele errado
mas foda-se
escrevo como quiser essa merda de nome
você destruiu a festa junina da galera
seu otário
por isso eu não te respeito mais
você tem um gosto musical legal? não
seu bronzeado é daora? não
você sabe fazer bolovo? não
então foda-se

acabo de receber um e-mail do taximental
que diz
você está no escuro porque não trocou a lâmpada da luminária
sua otária
ABS











10 maio 2014

cartas perdidas e achadas - parte II

troca de cartas perdidas e achadas no tempo-espaço. por débora lopes e victor bauab.
leia a parte I aqui.


querido b.,

acordei de sobressalto às seis da manhã, passei uma hora olhando pro teto e então resolvi te escrever. reli a sua carta algumas vezes antes de começar uma nova. fucei nos meus vinis e procurei um jazz para me servir de trilha sonora, mas acabei selecionando uma compilação de canções do orlando silva. talvez você saiba, mas mesmo assim gosto de contar. quando jovem, esse homem que hoje me agracia com um timbre tão grave trabalhou como vendedor de tecidos, sapateiro e cobrador de ônibus. quando era office boy, sofreu um acidente ao descer de um bonde com uma encomenda em mãos. parte de seu pé teve de ser amputado e ele ficou um ano parado, trancafiado em casa. dizem que silêncio é ouro. mas acho que paciência também é.

não é triste?

veja bem, prefiro que mantenhamos contato por cartas. isso significa que se você perdeu o papel com o meu telefone, a vida quis assim, por isso não irei te passar o número novamente. não é questão de orgulho. por favor, estamos em 1988, essa coisa de amor-próprio já está cafona. sejamos minimamente modernos.

não queria, mas sorri quando você disse ter olhado para o meu prédio e tentado adivinhar qual era o meu apartamento. infelizmente você não acertou. já tive girassóis, mas eles morreram. ainda assim, mantenho um singelo pé de manjericão na varanda. ou alfavaca, como preferir. lenda: coloque uma folha de manjericão fresca na mão de alguém. se a folha murchar, a pessoa é promíscua. você acredita nessas coisas? eu nunca tentei. na verdade, eu nunca quis saber se alguém era ou não promíscuo. eu nunca me enfiei assim na vida de alguém. ou nunca tive interesse o suficiente em obter uma informação combalida e inconclusiva como essa.

tenho vontade de te escrever muitas coisas. contar muitas coisas. mas algo em mim diz: não se entregue, não se entregue. e essa luta, que não sei quão necessária é quando falamos dum amor que começa, parece interminável. não quero viver sobre um ringue.

e de repente tudo fica amarelado, como são paulo banhada pela luz do sol que chega cedo. então ouço as primeiras buzinas, os ônibus passando, a voz dos vendedores pela calçada, o som de um motor fundido de motocicleta abafando o cantar genuíno de algum passarinho em meio a selva.

orlando silva canta que quem nunca chorou por amor nunca amou.

“talvez nem alma tenha para sentir”

um beijo calmo e rosa-quase-vermelho,

lourdes


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my bright flower,

a chuva parou & agora o sol ilumina minha janela. de não muito longe, a música cubana soa da cozinha da vizinha cubana, logo na porta em frente. estava ansiosíssimo para receber notícias tuas, mas parece que tudo se esfriou com a escrita concreta. ao esperar tua carta, meu coração fervia rubro e quando te li, era tão assim eu lendo um livro e você ouvindo uma música. tão sem estilo.

nestes tempos, abandonei tudo. minha barba está imensa, mas não vejo motivos para tirar. sou apegado demais às coisas (vênus em câncer) e, além do mais, a cada dia me pareço mais com Ginsberg, o poeta da minha juventude.

não entendo tua canhestrice, por deus. alice disse: a vida é a arte do encontro embora haja tanto desencontro pela vida. acho que ela é apaixonada demais por vinícius. ou talvez seja isso mesmo, o desencontro. eu já te disse: eu não penso mais no M. já passou o frio dos primeiros dias. hoje eu o maldigo, rasgo todas as cartas, criei um desgosto daquele sorrisinho dele, do pau dele, daquela gentileza fajuta que ele alardeava. mas não tenho mexido no assunto. ele também nunca ligou porque deve estar ouvindo aquela música cafona de teclados modernos e gritinhos desafinados com aquele rapazinho que diz ser seu namorado. marina, uma amiga que você não conhece, me alertava que "le rouge et le noir ne s'épousent-ils pas", mas eu não queria dar bola. eu devia ouvi-la mais.

estou ouvindo muito roberto esses dias e cheguei a uma conclusão: tudo que eu gosto é ilegal, é imoral ou engorda. mas engraçado você comentar sobre orlando silva. na segunda, comprei uma vitrola nova e ganhei um lp dele de brinde. na capa, ele me olha sério com aquele olho de peixe. depois que coloco o disco para rodar, me vem "nada além" e você veio à cabeça como que eu estivesse premonizando tua correspondência. você sabe, meu signo não me deixa ser lá muito persistente, mas o que sinto por você é muito puro. desde que te vi pela primeira vez, enxerguei cores nunca dantes vistas e meu coração pulsava só em saber que o teu também pulsava em algum lugar & não só o coração & não é brincadeira & você sabe.

Pedro veio até minha casa e pedro não parava de pular nele. fiquei encabulado por batizar meu cachorro com o nome dele, mas sempre achei pedro tão bonito...talvez por isso tenha me apaixonado por ele. mas agora, ele é adepto do "amor livre". que besteira, céus! isso é coisa da década passada! malditos hippies! ou sou careta demais, mas que seja. sinto saudade de trocar com pedro naquele dia-a-dia de sol e lençol.

não devia te contar, mas aí vai: você deixou uma parte de baixo aqui em casa, achei outro dia enquanto procurava o livro de huysmann perdido pelo quarto. uma calcinha branca com uma coisinha na frente. ou atrás. me masturbei com ela no rosto. desculpe. precisava fazer isso. sou homem, ora! mas não me deixe aqui sozinho, por favor. não sei como te pedir isso. pense em lupicínio, em gal costa. eu não consigo viver sem teu braço, pois meu corpo está acostumado...

um beijo & uma saudade que está transformando meu corpo em pó,

b.


04 maio 2014

um texto de sete anos atrás

fuçando uns cds de back up, achei esse texto. nada demais, mas foi doce ler algo antigo. a informação do arquivo me diz que ele foi criado em 19 de março de 2007.


JOAQUIM

O Joaquim disse que ter coração não é suficiente. Disse que amar um homem é diferente de amar uma mulher. Disse que beber uísque duplo é diferente de beber uísque só uísque. Eu perguntei o que era uísque só uísque e ele me respondeu: uísque. Eu tinha receio de abrir demais o coração porque temia respostas sujas que ele soltava quando estava cheirado demais. Contei que queria parar de cheirar e ele mandou eu me foder e falou que quanto mais você cheira, mais quer cheirar. Disse que não existe fim, não existe final feliz que nem em filme junkie. Falou com essas palavras. Eu retruquei que nem todo filme junkie termina bem e ainda falei: tu é que não entende porra nenhuma de cinema. Ele riu.

Quando desembesta a falar de cinema, vai do noir até a nouvelle vague. Aí emenda com a história da bossa nova, Beatles, Elvis, Doors, volta pra Elis, vai pra Adoniran Barbosa, passa por Chet Baker, Ray, Glenn Miller, conta toda a história da Blue Note e eu fico ali, embasbacada com o Senhor Enciclopédia Cultura de Boteco. É bom ouvir, mas não sempre. Minha vontade era beber mais, falar putaria e ouvir o quanto ele conseguia ser inteligentemente escroto sobre as coisas da vida. Elogiou meu vício de criar personagens e eu falei que ele ainda seria um personagem meu. Sorriu bonito quando eu falei, mas depois abaixou a cabeça, envergonhado. Contou do último cara com quem trepou, quem meteu em quem, quem chupou quem, falou que o cara saiu pra comprar camisinha correndo logo no começo da trepação porque viu que o negócio não ia ficar só no primeiro blowjob. Eu gargalhava feito retardada no meio do bar, já sem expectativa de acabar a noite sóbria. Fiz um resumo dos últimos meses vividos. A garota que me deixou, minha loucura por drogas, cigarros e comprimidinhos pra dormir. Ele ouviu mais com os olhos do que com os ouvidos. No meio da história toda, pegou na minha mão por cima da mesa. 

Me ouviu sem fazer muitas expressões faciais decifráveis. Eu me sentia numa reunião de AA. Joaquim criticou o fato de nos drogarmos tanto. Eu disse que não era nem prazer, tinha virado necessidade. Ele fez que sim com a cabeça. Acendi um cigarro, tirei os óculos dele e os coloquei em mim, fazendo graça. Joaquim pediu outra a cerveja ao garçom e me mandou tirar a porra dos óculos, porque eu parecia uma retardada. Dei risada. O garçom devia pensar que éramos irmãos pra tamanha intimidade. Coloquei os óculos no Joaquim bem devagarzinho. E ele, imitando bicha afetada, falou: Não faz a sexy, vai. E a gente gargalhava. 

Ele tinha essa coisa encantadora e repulsiva. Dava vontade de amar e odiar. No fundo, eu sentia pena do Joaquim. Ele era um cara lindo, foda e inteligente até os ossos, é verdade. Meio poeta, meio marginal, louco. Mas eu me perguntava porque os caras sempre se afastavam dele. Pensei que talvez fosse a cocaína em excesso. Pensei porque vivo isso. Sempre tem alguém se afastando. Mas, porra, o Joaquim era tão único. Enquanto esperava ele voltar do banheiro, não conseguia parar de pensar: Tenho medo de ser só como ele é. Não pelo fato de morar sozinho, mas sim por temer tanto dividir as coisas com alguém. O Joaquim tem uma alma sozinha. Por mais que esteja com um homem bom, não consegue se entregar. Cheguei a conclusão que também tenho essa coisa meio amargurada. É uma espécie de dor própria que não tem cura. Um peso que se arrasta da fase umbilical até o fim da vida. Não sei se o que nos conecta é o fato de sermos gays e junkies. Mas alguma coisa conecta, e é de uma forma perfeita. Existe irmandade e respeito. Existe uma ligação de amor violento e bruto. Bruto no sentido de puro, esperando ser lapidado.
O Joaquim voltou do banheiro. Minha vontade de filosofar sobre as nossas vidas passou. Sentou na minha frente, nossas pernas se aproximaram. Sexy, meio descabelado, junkie, sem limite, lindo. Acendeu um cigarro e sorriu pra mim. Único.

03 maio 2014

para uma tortura bastar - parte III

leia a parte I e a parte II.

o mundo parou e voltou a ser mundo porque o sol bateu na janela e debaixo do lençol eu sentia o dia chegando quente.

- mora comigo?

nós passamos uma noite só juntos e ele quer que eu more com ele. sério mesmo que ainda existe romance no mundo? achei que as pessoas acreditassem em tesão, paixão, obsessão. amor, pra mim, é novidade. desde que meu casamento com o antônio desmoronou, foi muito difícil fraquejar e voltar a acreditar em sentimentos reais. é como se o tempo tivesse me endurecido. é como se eu tivesse perdido a ternura. trocadilho infeliz. eu sei.


suddenly, out of left field

came a lover and a friend

she was a lover and a friend

came out of nowhere



she made me a man

every thing is alright

how sweet it is



ele me acordou pedindo que eu fosse morar com ele e cantando percy sledge bem baixinho. levantei, coloquei minha calça jeans e ele fitava os meus peitos como um louco.

- eles cabem na minha mão, falou enquanto eu fazia um coque no cabelo e olhava ele deitado sem roupa com os braços atrás da cabeça.

minha alma sorri. é um lance que não tem nada mais nada a ver com o corpo, é muito pior, é quase infantil, é quase uma sede, uma loucura, tipo ser criança e precisar desesperadamente de uma bicicleta, é como se não desse pra respirar sem isso, é como correr pra entrar no metrô no último segundo antes da porta fechar, é como ter que esperar a porra da sopa esfriar pra dar a primeira colherada em julho, quando tá um frio do caralho. é conflituoso. é um sacrifício. é de perder o fôlego. é tipo um soluço que não passa. é como sonhar que você está pelada na frente da escola toda. ou de pijama.

amar é uma aflição.

- o que você faz da vida?, pergunto.

afinal, transei com um cara que mal sei quem é. o que sei é que ele tem um gosto musical incrível, cheio de poeira, e que casa perfeitamente com o meu apreço por velharias sonoras. mas música não é tudo. se ele disser que gosta de assistir big bang theory ou dexter, pego minhas coisas e saio dessa casa correndo.

- por que seu casamento acabou?, ele retruca.

- eu perguntei primeiro. o que você faz da vida?

e ao invés de responder, ele bateu com as mãos no colchão, me chamando pra perto. fui. deitei. e ele começou a tirar a minha calça e desfazer meu coque. deixei. e ele me respondeu.

- o que eu faço da vida a partir de hoje é te fazer feliz.

[continua...]


21 abril 2014

cartas perdidas e achadas - parte I


troca de cartas perdidas e achadas no tempo-espaço. por débora lopes e victor bauab.


oi.

comprei duas fichas. te liguei, chamou, chamou, perdi uma. guardei a outra no bolso. sinto tanta saudade. queria gritar pro mundo. não posso. li seu horóscopo hoje. dizia alguma coisa sobre mercúrio estar em áries, mas não decorei. até esqueci. também não decorei seu telefone. anotei num pedaço de papel e deixei no bolso junto com a ficha. às vezes penso muito em nós dois, no rumo que as coisas tomaram, em como me sinto subversiva quando pego tudo o que construí e jogo pro alto gritando o teu nome. dói como uma facada. aí ouço alfa fm, choro um pouco, compro hortelã pra fazer suco, escuto todos os discos da prateleira. nada faz sentido. nenhum deles faz sentido. o horóscopo não faz sentido. essa ficha no meu bolso não faz sentido. seu telefone. minha letra. o papel. parece que um buraco enorme se abriu no mundo. e quem tá caindo sou eu. não é você.

nos vemos,

l.


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my new dear,

agora fiquei encabulado. você tentou me ligar naquela tarde? pois, eu estava em frente ao teu prédio, olhando para o andar que supus ser seu apartamento. aquelas flores só poderiam ser tuas. girassóis lindos, naquele vasinho todo colorido. foi você que pintou? não vi nenhum movimento lá, então sentei naquele café da esquina em que tomamos o pingado e o chapado da manhã. abri o livro na página 23, cheia de cá cá cá na fé fé fé, e pensei ter te visto atravessando a rua, mas algo ali não era teu.

dormi mal naquela noite, preciso te contar. você me vinha na mente a todo o tempo, não me deixava dormir. vivo um pouco assim ultimamente, perturbado. mas de um jeito bom, por deus, não me entenda mal. recolher os despojos frente a velhas tumbas para alcançar a enteléquia da mais pura não é a função de existir?

perdi o papel que você me deu, mas me lembro mais ou menos o que estava escrito. "fui, mas não sem levar teus olhos marrom-lápis na mente", algo assim, como um amor de loca juventud. mas teu telefone despretensioso, eu perdi e não me perdoo. aliás, te disse que ando perturbado ultimamente? quase não me reconheço, quase não reconheço mais o signo em mim, que sempre me foi tão apegado. escorpião, sagitário, não sei que lá. mas há boas previsões naquele horóscopo do jornal. também li o seu. "netuno e lua caminham em peixes trazendo boas mudanças", dizia. faz sentido?

quando te vejo de novo? quero te apresentar uma coisa que conheci e me deixou estarrecido.

um beijo de nove minutos que não pude te dar,

b.

07 abril 2014

ás


hora de abrir um botão
e enfiar a mão
dentro da calça
deixar lá
curtindo
um som
fumando
um cigarro
pensar na vida
olhar o teto
mitigar
os pensamentos
todos
estar
entre o verde
e o azul
das coisas

ver o centro em sépia
sem filtro
calma
é só uma lente
marrom
o copan
de manhã
que lindo

surfar dentro do cabelo
se imaginar
na cadeira
do cobrador
ceder lugar
fingir que dorme
pra não ceder
o lugar

o crime compensa?

ouvir a mesma canção
no loop
quarenta e quatro vezes
sem enjoar

fazer a matemática
da vida
e ver
que a soma
a divisão
e a porra do X
não importam uma pica
não valem nada
nunca valeram

comprar fiado na vendinha era bem mais lôco

é como quando
você nem menstruou
ou beijou
e busca respostas
em revistas
escritas
por pessoas
tão frustradas
quanto você

foda-se o empirismo
nossa, foda-se mesmo

existem coisas melhores
sempre existem coisas melhores na vida

discutir a grafia
dizer bom dia
e se esforçar
pra falar outra língua

ler pouco
e querer saber
muito
odiar partituras
ligar e dizer
não vou
não quero

ver a vida
não ponderar
correr o risco

foda-se a epistemologia
foda-se

prefiro
perceber
a latência
das e nas
palavras
que às vezes querem mesmo dizer algo
e eu lembro
daquela frase
“nos horizontes dos teus ais”
eu nunca esqueci isso

seja bem-vindo, outono
você sempre traz o começo e o fim
do meu inferno astral
e que venha o meu novo ciclo solar

,

hoje eu vi uma sacola voando no vento

e foi foda


04 abril 2014

para uma tortura bastar - parte II

para ler a parte I, clique aqui.


essa coisa de primeira impressão me pega pra caralho. fiquei pensando com-que-roupa-com-que-roupa-com-que-roupa-eu-vou-pro-samba-que-você-me-convidou. imaginei que você estivesse cagando pra minha roupa e se importando muito mais com o que estava dentro dela. ou com o que não estava. porque, sim. fui sem. obviamente pra provocar, pra ter um motivo, ter algo pra contar que fugisse do trivial. marcamos de nos ver já no lugar porque bernardo tem esse quê de independência amorosa assim como eu tenho, embora ele pareça muito mais interessado em mim do que eu nele. ao mesmo tempo que me interesso, perco o interesse do nada.

quando cheguei ele já estava lá, no segundo chope. não sei bem o que me deu, cheguei e dei um beijo nele. na boca. um beijo leve. quase infantil. um selinho demorado. doce. desses que faz as pernas tremerem e o peito queimar.

- você está linda.

sorri. não disse nada. nem oi. é duro ter sido casada. é foda. de alguma maneira, algo dentro de você congela e teme. expectativa demais estraga o ser humano.

- eu precisava muito ter ver, ele suspirou.

eu não sei teu signo, criatura, mas teu timbre de voz me transporta prum mercúrio quase, quase nada retrógrado. arrisquei uma primeira fala enquanto ajeitava uma mecha de cabelo atrás da orelha.

- a gente nem se conhece direito.

ele sorriu. senhor amado. uma coisa me queima por dentro. um horror, um sonho, uma coisa incrível e assustadora. amor?

pedi um drinque qualquer, nem lembro qual. ele continuou no chope. nove. contei as bolachas. me achei psicótica por isso. contar quantos chopes ele tomou. mas contei. tomei três drinques e uma dose de cachaça. tentei fazer uma conta que envolvesse porcentagem alcoólica, mas desisti porque já estava bêbada e por na balança quão bêbado está cada um é uma merda. ele perguntou se eu queria ir até a casa dele. ouvir discos. todo mundo sabe que tipo de disco você ouve quando está com bebida na cabeça. e eu fui.

quando chegamos lá foi inevitável perceber a organização. casa muito mais arrumada que a minha. certeza. ele colocou “when lights are low” e me pegou de surpresa. me beijando e me agarrando pela cintura. será que eu ainda tenho pernas, eu pensava, porque ficar de pé estava impossível. não pela bebida, mas pela coisa toda, pelo abraço, pela dança, pelo beijo, por aquele homem, aquele pescoço, aquelas mãos que meudeusdocéu.

- eu não sei dançar.

e ele falou de um jeito tão fofo.

- dançar é só uma desculpa pra eu me esfregar em você.

sei lá. eu tava bêbada. foda-se. falei.

e ficamos dançando na sala.

eu sentia o cheiro dele, sentia, sentia mais, ele me cheirava e me beijava. e me pegava pelo cabelo dum jeito que parecia mesmo que sabia o que estava fazendo. parecia de propósito. ele enfiava a mão no meu cabelo por dentro, perto da nunca, e segurava tudo, o cabelo, a cabeça, meu corpo, meu coração. eu estava entregue. mesmo. eu fraquejei. expulsei meus demônios cheios de medo. estava bom. por que eu deveria me privar de viver algo bom? por que, bernardo, se você só faz com que eu me sinta bem e viva e amada e uma mulher diferente das outras mulheres que você já teve, sei lá, sua amante, sua mulher, fazer planos, aqui você vai comprar carvão, aqui cerveja, vamos morar aqui nesse apartamento perto da treze de maio, vamos ter dez filhos, sei lá, eu fazia planos sem querer enquanto você me abraçava, com a tua mão esquerda dentro do meu cabelo, me enfiando na tua vida pra sempre e eu nem sabia.

- mais, falei.

e ele me beijou mais. e me segurou forte.

e o mundo – tão grande, tão gigante, tão mundo – parou.


[continua...]

26 março 2014

desculpa


ajeita o pijama dobrado
debaixo do travesseiro
pensa no nome
dela
levina

acende o primeiro cigarro
pós-expediente
cumprimenta
o segurança

boa noite

em vão
quer adivinhar
coisas

que bobagem

carrega o ipod
ouve
thirthy-three
é tão
tão
linda

lê poesia cafona
o jornal
no metrô
os quadrinhos
esse menino
me olhando
deve ter
cinco
ou seis
sete
anos

quer fazer sopa
filho
livro

levar o cão pra passear

conferir
se preposição
é 
em caixa
baixa
ou
alta

ler as manchetes
e desacreditar
confundir
os tempos verbais
misturar
a porra toda

peca
esconde
erra
chora
e reza

toma banho correndo

hoje é um novo dia



14 março 2014

o problema é que eu estava voando



tirei uma foto tua. você não percebeu. e nunca irá saber. tirei uma foto de uma joaninha que encontrei no batente da porta outro dia. hoje eu vi um cachorro que parecia uma raposa, um chacal. tirei uma foto de uma nuvem em formato de faixa romântica na porta da casa da sua namorada. tirei uma foto minha. tirei uma foto do meu esmalte do pé descascando. você nunca verá essa foto. tirei uma foto (mas essa foi com a mente) do cara de olhos tristes. tirei uma foto de um peixe morto que vi na feira. te vi correr, te vi dormir, tirei várias fotos, mas nunca vou te mostrar. tirei uma foto da zélia. ela comia bolo e sorria. tirei uma foto do meu caderno. essa foi pra celebrar a inspiração repentina. tirei uma foto deles sorrindo no parque. e de um deles que subiu na árvore. tirei uma foto da mina encapuzada e do namorado dela que carregava um skate. tirei uma foto dos meus poemas nunca revisados. se um dia eu perdesse o caderno, teria a foto. tirei uma foto da árvore porque ela era tão bonita e pensei que você talvez achasse doce eu fazer isso. tirei uma foto sua mastigando. tirei uma foto da mão do meu pai fazendo cafuné na minha mãe. tirei uma foto da minha idade, 27, que logo não será mais minha. tirei uma foto de todas as construções linguísticas que já quis fazer em algum texto e nunca consegui. essa teve um impulso de coragem. tirei foto do dormitório do acampamento. eu dormi de pijama no beliche de cima. me desculpe se beliche é um substantivo feminino, mas eu realmente não quero saber. tirei uma foto da hora que eu encostei em você. tirei uma foto do seu videocassete prata. tirei uma foto das toalhas penduradas no varal. elas balançavam com o vento e aquela cena me dava tanta saudade de quando eu era criança. um dia vi uma laranja em cima da máquina de lavar e perguntei pra rosa o que é isso? chouriço, pra comer na hora do serviço. até hoje essa resposta me intriga porque não sei o que é chouriço. talvez seja apenas uma palavra mal educada pra despistar alguém que te enche o saco. era muito provável que eu enchesse o saco da rosa. tenho fotos em que ela me beija e me abraça. mas mamãe disse que ela nos roubava. nunca mais nos falamos. fiquei com raiva da rosa. e também com um pouco de dó. ela era boa pra mim, ainda que tivesse uma cara de mulher má - com direito a sobrancelhas arqueadas. o cabelo curtinho, bem crespo. a pele morena. me contou que a laranja era um chouriço. desconfiada, eu olhava pra laranja. ficava até cansada de pensar. por que a rosa vai comer uma laranja e tem que ser na hora do serviço? tirei uma foto. minha. eu tinha cinco anos, morava naquela casa antiga e grande, com paredes descascadas. troquei uma barbie por um adesivo brilhante. meu irmão dizia que eu era otária. mas na hora o adesivo me pareceu muito mais interessante que a barbie. ela era tão perfeita e tão diferente de mim. já o adesivo era em formato de borboleta. mas era usado e já tinha perdido parte da cola. não grudava mais em nenhuma superfície. mamãe explicou que as garotas mais velhas da rua me faziam de boba. mesmo assim eu gostava de brincar com elas. tirei uma foto da garrafa de cerveja suada. você bebeu tudo tão rápido. eu bebo devagar, eu acho. larguei a carne. tá pra dar uma semana. tirei uma foto de um assento vazio no ônibus. e por uns segundos imaginei você nele. mentalmente me estapeei e deletei a foto. mas depois tirei uma foto do teto branco, imponente, infinito, largo. tetos são reflexivos. tetos são absolutamente necessários. quem nunca olha pro teto não olha pra si. eu tenho alma. tirei uma foto do pote de açúcar. de alguma maneira ele me convidou a retratá-lo. quis tirar uma foto da banca de jornal na esquina, mas não tirei. nem da grávida. tive vergonha. também não tirei foto do cobrador. nem do seu pescoço. mas tirei várias outras. talvez eu deixe você ver. se pá a da pizza, a do corredor. eu também tirei uma foto do prefeito. fiquei impressionada em ver como ele fala bem. e recebo diariamente a agenda do homem. são muitas reuniões todos os dias. ele me olhou no olho. não é esquisito imaginar o prefeito te olhando no olho? achei um tanto. tirei uma foto da minha cabeça só pra me certificar de que ela realmente estava no lugar propício. e também uma do coração.