22 setembro 2014

batom não cura

ao som de canto de nanã ela passa um batom escuro na boca e se olha no espelho. o decote do vestido branco rendado mostra seu colo magro, jambo e ossudo. duro feito pedra. um peito sem leite. o outro com. ela se olha. vira. mede a bunda. sem pose. não tem paciência pra isso. apenas se olha. é mãe. é amante. ainda assim, é mais sozinha que a voz de um peregrino pedindo água no deserto. se deus existe que lhe ouça. porque essa mulher está triste. e o batom não cura.

21 junho 2014

sábados

te esperei na esquina da martins bonilha por mais ou menos quarenta minutos. foi novo porque é sempre você quem me espera. e lembrei do dia do café (quando a noite chegava). fazia tão pouco tempo e ali mesmo a vida já demonstrava o tamanho da merda que estava por vir. li todos os folhetos sobre a mulher e o islamismo. acabei botando de volta no livro. era da biblioteca. não sei de quem veio nem pra quem vai. aliás, nem te disse, mas rasguei um dos livros que você me deu. eu estava na página 89 e, quando virei para a 90, dei de cara com um bilhete.

sentir falta é um agente que impulsiona, confunde e me dificulta (tanto) a hierarquização dos sentimentos. te coloco na frente de tudo. não posso. sinto saudade. mas sei que você não sente.

“tú
que ayer sólo eras toda la hermosura
eres también todo el amor, ahora.”

P.

senti algo horrível. não sei se ciúme. algo mais próximo da raiva. e também porque eu sabia de quem era a citação. borges. não lembrava o poema, mas sabia que era dele. tinha certeza. nem conferi. até agora não conferi. e tenho certeza que é dele. passei boas semanas metida no livros dele pra desenvolver uma pesquisa no terceiro ano da faculdade. e uma única coisa me incomoda, me incomoda profundamente nessa citação: o poder da vírgula. a força. o significado. uma porrinha duma vírgula.

eres también todo el amor, ahora

sem essa vírgula a frase não teria o peso que tem. agora. você, que ontem era só toda a beleza, é também todo o amor, agora. você. amor. todo amor. agora. ou seja, agora você é todo o amor. quem é P? meu deus. quem é P? por que caralhos você me deu um livro seu com um bilhete de alguém dentro? geralmente, as pessoas sacodem seus livros antes de emprestá-los. isso é cuidado. mínimo cuidado com as suas coisas. ou melhor, com a sua intimidade. eu jamais daria ou emprestaria um livro que li com algo dentro. fosse um folheto sobre a mulher e o islamismo ou um bilhete de “amor”.

guardei o bilhete. mas rasguei o livro. piquei tudo. sem pudor. em papéis minúsculos. fui muito louca. sim. fui. rasguei tudo. se eu tivesse uma fogueira, metia o livro lá dentro. guardei o bilhete. está aqui. quero te devolver. imagino que P deva ter algum significado na sua vida. senti raiva de você, não de P (sei lá se é homem ou mulher). o bilhete é bonito. a letra é horrível. a minha letra é muito mais bonita.




mentira.

minha letra é horrível.





e é mentira que eu guardei o bilhete pra te devolver. eu rasguei junto com o livro.





desculpa.









06 junho 2014

botou o disco do lado errado deu nisso


ajeita o vestido
tá curto
olha ao redor
ninguém fuma
isqueiro
isqueiro

vai no boteco em frente
que cor?
a mulher pergunta
preto
R$3,50
bic

a capa do disco tem um homem fantasiado
e um anão
mas a trilha é outra
aquela
toda errada
ela

andou pela cidade
ouvindo mil vezes
a mesma

ajeita a saia
puta burrice andar de bicicleta e saia

saí
da bolha
do caos
do submundo
dos tubarões
das marajogatas
do calor eterno
da estrada
dos planos
da viagem
de ir ou ficar
no ivspisahlaarsdama

queimou tudo
a porra toda
fotos
poemas
discos
queimou tudo
a porra toda

em prol do sossego
do não-você
da ausência presente

orgulho
taí um sentimento imundo

falta de amor-próprio
taí a maior burrice humana

será
que já
parou
pra pensar
será

o taximental roda a cidade com o taxímetro desligado
já que o mundo parou tá sussa
nem vou pagar
nem vou pagar esse táxi
mas vou pegar
outro táxi
ir pra outra cidade
de táxi
ir pra europa
de táxi
foda-se a europa

vender sabonete
em cuba
vender fandangos
em afuá
vender o veneno do sapo
pro mundo todo
aí geral vai ficar bem lôca
quem sabe assim as pessoas não param de se matar
quem sabe assim as pessoas não criam coragem
culhão
de fazer o que quer
e gosta
poesia
rima
o caralho a quatro
fazer o que quer
fugir
construir asas
tipo o pai do ícaro
e depois
derreter a cera
a estrutura das asas 
o táxi roda
e roda
vai até a casa do caralho e volta
pra casa
o táxi sempre volta
pra casa

o coração é tipo uma garagem
abriga coisa importante
e abriga tralhas
várias delas
umas que você esquece
e lembra depois
outras que não servem pra nada
e você doa
ou bota no lixo

o taximental volta pra casa mas não volta pra garagem
o taximental quer fazer mestrado e dar aulas
o taximental quer ter um pássaro mas odeia gaiolas
o taximental quer aprender a fazer bolovo
o taximental quer conhecer o japão
o taximental quer festa de formatura
quer aprender a jogar bola e fazer pão
bolinho de chuva
cheirar cola
quer ser mendigo por um dia
se candidatar a vereador
quer ser uma urna eletrônica
quer conhecer a vegetal
e casar com ela
viu rodrigo
é bom mesmo que a tua personagem crie vida
porque o taximental já comprou as alianças
escolheu a música
e os músicos
todos estarão de gravata borboleta
a única comida será croquete
cocrete
e a bebida, tuchaua
o guaraná da nossa terra
diz a embalagem
mas nada de bolo
ou bem-casado
que aí já é muita palhaçada

o taximental é hermafrodita mas gosta de se fazer de machão
e coçar o saco a cada dois minutos e quarenta e quatro segundos

o taximental matou dois coelhos
com uma cajadada só

e agora nas festas juninas
aquela merda de brincadeira dos coelhos
eu tenho essa memória
quando estudava no santa amélia
tinha uma brincadeira do coelho
umas casinhas
e você tinha que saber pra qual casinha iria o coelho
se acertasse, ganhava um prêmio
não tem como saber qual casa o coelho irá escolher
só sendo o cérebro do coelho

o taximental foi na festa junina e quebrou tudo
a porra toda
jogou a panela de vinho quente no chão
botou fogo nos algodão-doce tudo
a criançada começou a chorar
um mano enorme chegou no taximental
e partiu pra porrada
grudou no pescoço
e o taximental tava nem aí 
o bolander colado tipo carrapato
e o taximental rasgava as bandeirinhas
mandava todo mundo ir tomar no cu
jogou pipoca no chão
estourou todos os balões de gás hélio
eita como a molecada chorava

taximental
você
é 
atroz
você
é
um homem
mal

agora sinto raiva de você
porque você acabou com a festa junina da galera
então vou escrever o teu nome errado
teu merda

o tamixental voltou pra casa
mas a casa não tinha garagem
dormiu no sereno
de boa
sem nenhum peso na consciência
ficou pensando no menor slam do mundo
e quis fazer slams político-sociais
vou ganhar essa porra
pensou
arrogantasso

o maxitemal ficou duas semanas sem cagar
e três dias sem beber nenhum líquido
mas nunca deixou de rezar
toda noite antes de dormir ele reza
reza reza reza
sempre

o tmaentalix ouve a mesma música todo dia
que é pra sofrer
sofrer de amor
ele manda sms pros amigos
e diz
ESTOU SOFRENDO DE AMOR

ninguém nunca responde
e mesmo assim ele continua enviando sms
às vezes liga pro seu broder mais próximo
alô
ESTOU SOFRENDO DE AMOR
e desliga
só queria mesmo propagar esse sofrimento sofrido
que é o amor

o xamneital não está curtindo o fato deu escrever o nome dele errado
mas foda-se
escrevo como quiser essa merda de nome
você destruiu a festa junina da galera
seu otário
por isso eu não te respeito mais
você tem um gosto musical legal? não
seu bronzeado é daora? não
você sabe fazer bolovo? não
então foda-se

acabo de receber um e-mail do taximental
que diz
você está no escuro porque não trocou a lâmpada da luminária
sua otária
ABS











10 maio 2014

cartas perdidas e achadas - parte II

troca de cartas perdidas e achadas no tempo-espaço. por débora lopes e victor bauab.
leia a parte I aqui.


querido b.,

acordei de sobressalto às seis da manhã, passei uma hora olhando pro teto e então resolvi te escrever. reli a sua carta algumas vezes antes de começar uma nova. fucei nos meus vinis e procurei um jazz para me servir de trilha sonora, mas acabei selecionando uma compilação de canções do orlando silva. talvez você saiba, mas mesmo assim gosto de contar. quando jovem, esse homem que hoje me agracia com um timbre tão grave trabalhou como vendedor de tecidos, sapateiro e cobrador de ônibus. quando era office boy, sofreu um acidente ao descer de um bonde com uma encomenda em mãos. parte de seu pé teve de ser amputado e ele ficou um ano parado, trancafiado em casa. dizem que silêncio é ouro. mas acho que paciência também é.

não é triste?

veja bem, prefiro que mantenhamos contato por cartas. isso significa que se você perdeu o papel com o meu telefone, a vida quis assim, por isso não irei te passar o número novamente. não é questão de orgulho. por favor, estamos em 1988, essa coisa de amor-próprio já está cafona. sejamos minimamente modernos.

não queria, mas sorri quando você disse ter olhado para o meu prédio e tentado adivinhar qual era o meu apartamento. infelizmente você não acertou. já tive girassóis, mas eles morreram. ainda assim, mantenho um singelo pé de manjericão na varanda. ou alfavaca, como preferir. lenda: coloque uma folha de manjericão fresca na mão de alguém. se a folha murchar, a pessoa é promíscua. você acredita nessas coisas? eu nunca tentei. na verdade, eu nunca quis saber se alguém era ou não promíscuo. eu nunca me enfiei assim na vida de alguém. ou nunca tive interesse o suficiente em obter uma informação combalida e inconclusiva como essa.

tenho vontade de te escrever muitas coisas. contar muitas coisas. mas algo em mim diz: não se entregue, não se entregue. e essa luta, que não sei quão necessária é quando falamos dum amor que começa, parece interminável. não quero viver sobre um ringue.

e de repente tudo fica amarelado, como são paulo banhada pela luz do sol que chega cedo. então ouço as primeiras buzinas, os ônibus passando, a voz dos vendedores pela calçada, o som de um motor fundido de motocicleta abafando o cantar genuíno de algum passarinho em meio a selva.

orlando silva canta que quem nunca chorou por amor nunca amou.

“talvez nem alma tenha para sentir”

um beijo calmo e rosa-quase-vermelho,

lourdes


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my bright flower,

a chuva parou & agora o sol ilumina minha janela. de não muito longe, a música cubana soa da cozinha da vizinha cubana, logo na porta em frente. estava ansiosíssimo para receber notícias tuas, mas parece que tudo se esfriou com a escrita concreta. ao esperar tua carta, meu coração fervia rubro e quando te li, era tão assim eu lendo um livro e você ouvindo uma música. tão sem estilo.

nestes tempos, abandonei tudo. minha barba está imensa, mas não vejo motivos para tirar. sou apegado demais às coisas (vênus em câncer) e, além do mais, a cada dia me pareço mais com Ginsberg, o poeta da minha juventude.

não entendo tua canhestrice, por deus. alice disse: a vida é a arte do encontro embora haja tanto desencontro pela vida. acho que ela é apaixonada demais por vinícius. ou talvez seja isso mesmo, o desencontro. eu já te disse: eu não penso mais no M. já passou o frio dos primeiros dias. hoje eu o maldigo, rasgo todas as cartas, criei um desgosto daquele sorrisinho dele, do pau dele, daquela gentileza fajuta que ele alardeava. mas não tenho mexido no assunto. ele também nunca ligou porque deve estar ouvindo aquela música cafona de teclados modernos e gritinhos desafinados com aquele rapazinho que diz ser seu namorado. marina, uma amiga que você não conhece, me alertava que "le rouge et le noir ne s'épousent-ils pas", mas eu não queria dar bola. eu devia ouvi-la mais.

estou ouvindo muito roberto esses dias e cheguei a uma conclusão: tudo que eu gosto é ilegal, é imoral ou engorda. mas engraçado você comentar sobre orlando silva. na segunda, comprei uma vitrola nova e ganhei um lp dele de brinde. na capa, ele me olha sério com aquele olho de peixe. depois que coloco o disco para rodar, me vem "nada além" e você veio à cabeça como que eu estivesse premonizando tua correspondência. você sabe, meu signo não me deixa ser lá muito persistente, mas o que sinto por você é muito puro. desde que te vi pela primeira vez, enxerguei cores nunca dantes vistas e meu coração pulsava só em saber que o teu também pulsava em algum lugar & não só o coração & não é brincadeira & você sabe.

Pedro veio até minha casa e pedro não parava de pular nele. fiquei encabulado por batizar meu cachorro com o nome dele, mas sempre achei pedro tão bonito...talvez por isso tenha me apaixonado por ele. mas agora, ele é adepto do "amor livre". que besteira, céus! isso é coisa da década passada! malditos hippies! ou sou careta demais, mas que seja. sinto saudade de trocar com pedro naquele dia-a-dia de sol e lençol.

não devia te contar, mas aí vai: você deixou uma parte de baixo aqui em casa, achei outro dia enquanto procurava o livro de huysmann perdido pelo quarto. uma calcinha branca com uma coisinha na frente. ou atrás. me masturbei com ela no rosto. desculpe. precisava fazer isso. sou homem, ora! mas não me deixe aqui sozinho, por favor. não sei como te pedir isso. pense em lupicínio, em gal costa. eu não consigo viver sem teu braço, pois meu corpo está acostumado...

um beijo & uma saudade que está transformando meu corpo em pó,

b.


04 maio 2014

um texto de sete anos atrás

fuçando uns cds de back up, achei esse texto. nada demais, mas foi doce ler algo antigo. a informação do arquivo me diz que ele foi criado em 19 de março de 2007.


JOAQUIM

O Joaquim disse que ter coração não é suficiente. Disse que amar um homem é diferente de amar uma mulher. Disse que beber uísque duplo é diferente de beber uísque só uísque. Eu perguntei o que era uísque só uísque e ele me respondeu: uísque. Eu tinha receio de abrir demais o coração porque temia respostas sujas que ele soltava quando estava cheirado demais. Contei que queria parar de cheirar e ele mandou eu me foder e falou que quanto mais você cheira, mais quer cheirar. Disse que não existe fim, não existe final feliz que nem em filme junkie. Falou com essas palavras. Eu retruquei que nem todo filme junkie termina bem e ainda falei: tu é que não entende porra nenhuma de cinema. Ele riu.

Quando desembesta a falar de cinema, vai do noir até a nouvelle vague. Aí emenda com a história da bossa nova, Beatles, Elvis, Doors, volta pra Elis, vai pra Adoniran Barbosa, passa por Chet Baker, Ray, Glenn Miller, conta toda a história da Blue Note e eu fico ali, embasbacada com o Senhor Enciclopédia Cultura de Boteco. É bom ouvir, mas não sempre. Minha vontade era beber mais, falar putaria e ouvir o quanto ele conseguia ser inteligentemente escroto sobre as coisas da vida. Elogiou meu vício de criar personagens e eu falei que ele ainda seria um personagem meu. Sorriu bonito quando eu falei, mas depois abaixou a cabeça, envergonhado. Contou do último cara com quem trepou, quem meteu em quem, quem chupou quem, falou que o cara saiu pra comprar camisinha correndo logo no começo da trepação porque viu que o negócio não ia ficar só no primeiro blowjob. Eu gargalhava feito retardada no meio do bar, já sem expectativa de acabar a noite sóbria. Fiz um resumo dos últimos meses vividos. A garota que me deixou, minha loucura por drogas, cigarros e comprimidinhos pra dormir. Ele ouviu mais com os olhos do que com os ouvidos. No meio da história toda, pegou na minha mão por cima da mesa. 

Me ouviu sem fazer muitas expressões faciais decifráveis. Eu me sentia numa reunião de AA. Joaquim criticou o fato de nos drogarmos tanto. Eu disse que não era nem prazer, tinha virado necessidade. Ele fez que sim com a cabeça. Acendi um cigarro, tirei os óculos dele e os coloquei em mim, fazendo graça. Joaquim pediu outra a cerveja ao garçom e me mandou tirar a porra dos óculos, porque eu parecia uma retardada. Dei risada. O garçom devia pensar que éramos irmãos pra tamanha intimidade. Coloquei os óculos no Joaquim bem devagarzinho. E ele, imitando bicha afetada, falou: Não faz a sexy, vai. E a gente gargalhava. 

Ele tinha essa coisa encantadora e repulsiva. Dava vontade de amar e odiar. No fundo, eu sentia pena do Joaquim. Ele era um cara lindo, foda e inteligente até os ossos, é verdade. Meio poeta, meio marginal, louco. Mas eu me perguntava porque os caras sempre se afastavam dele. Pensei que talvez fosse a cocaína em excesso. Pensei porque vivo isso. Sempre tem alguém se afastando. Mas, porra, o Joaquim era tão único. Enquanto esperava ele voltar do banheiro, não conseguia parar de pensar: Tenho medo de ser só como ele é. Não pelo fato de morar sozinho, mas sim por temer tanto dividir as coisas com alguém. O Joaquim tem uma alma sozinha. Por mais que esteja com um homem bom, não consegue se entregar. Cheguei a conclusão que também tenho essa coisa meio amargurada. É uma espécie de dor própria que não tem cura. Um peso que se arrasta da fase umbilical até o fim da vida. Não sei se o que nos conecta é o fato de sermos gays e junkies. Mas alguma coisa conecta, e é de uma forma perfeita. Existe irmandade e respeito. Existe uma ligação de amor violento e bruto. Bruto no sentido de puro, esperando ser lapidado.
O Joaquim voltou do banheiro. Minha vontade de filosofar sobre as nossas vidas passou. Sentou na minha frente, nossas pernas se aproximaram. Sexy, meio descabelado, junkie, sem limite, lindo. Acendeu um cigarro e sorriu pra mim. Único.