08 março 2010

sunflower

pega fogo o apartamento na esquina
e concluo que cada noite é uma noite
e cada bolero, um bolero
os passos desritmados ao abismo:
inevitáveis

há um enorme gap entre o que sou e o que devo ser
duas pontes que conectam
o acesso
ao retrocesso
difuso
e torpe
pela noite

o cansaço do cansaço
dum barco velho que não se move mais
de pessoa
pra
pessoa
pra
caeiro
pra


e o que guardo - velado velado -


nada poetizarei
nada achincalharei

a lona é morna
e envolve os fatos
enquanto não descobrir o que há por baixo
não durmo
não dormirei
nunca


amanhã haverá o trânsito
o acinzentado massacre
o pensamento que explode doido

haverá o fôlego e o choro
o poeta e o louco

e haverá a verdade
deliciosamente nua
estapeando-me a cara


todos erram.



nenhuma dor exprime
o que um vibrato retrata
num bolero



me debruço
me viro
não durmo
não engulo

haverá amanhã a carne carcomida
dois longos caminhos
e um beijo


que dirá


boa noite, sunflower.

03 março 2010

madrugada
momento
intenso
de

S O L I D Ã O

17 fevereiro 2010

enquanto é noite e somos jovens

o que consome são paulo é o gosto quente dos homens; são os motoboys pilotando, enfurecidos, suas máquinas desenfreadas. o que alimenta são paulo é o pudor cravado no peito de todas as mulheres, é o background monocromático que tecemos (eu, você e o resto) com nossas cervejas, com nossas conversas entrecortadas, nossos desejos cocaínicos, nosso paladar de gato: chamo essa ousadia de despudor. e trago, meu amigo, neste devaneio noctívago escrito num guardanapo qualquer, meu repudiável ar de quem sabe o que diz - brindemos -, minha mente embriagada, cheia de flashs; minha rebeldia de fêmea, meu bem-estar silencioso. tin tin.



(julho, 2008)


cá pensando que beber, eu bebo hoje. em 2008 eu era doutras vibrações.

25 novembro 2009

aos prantos. assistindo vídeos de adoniran barbosa, tonico e tinoco, demônios da garoa. pensando em minhas raízes, revendo o que sou hoje, lembrando com amor da mooca, a saudosa maloca que me deu asas. penso em minha família e no tamanho que o mundo tinha. lembrando do sítio de meu tio, das intermináveis modas de viola durante os fins-de-semana. pensando em meus pais - ainda jovens, cheios de vida! - e em tantos carros velhos que tivemos. todos, absolutamente, tinham um só apelido: possante! e enfrentavam a estrada até biritiba mirim, onde um pedaço de terra nos abrigava. ah, e a mooca, a mooca. o samba, os botecos, o parmêra. passeios de carro com papai pelo brás e pari. e essa sensação engasgada de choro, de saudade doída. de realizar que cresci, que criei cascas, que o mundo mudou. que meus irmãos não fazem cerol, não empinam pipa, não usam boné pra trás, não são magrelos, não são mais meninos. não nos socamos mais por causa de um singelo toddynho, não vemos a sessão da tarde. não moro na mooca. não sou criança. o sítio foi vendido.


é uma dor que, agora, me faz contemplar o essencial.


"E prá esquecê nóis cantemos assim:
Saudosa maloca, maloca querida,
Que dim donde nóis passemos dias feliz de nossa vida"

21 novembro 2009

Alvorada

a televisão diz que vai chover. não há comida nas panelas, mas há louça suja. o tempo lá fora soa nórdico e o que ocorre está velado - mas desta vez estou disposta a alimentar os bichos.



tenho em meu peito a aurora das sensações.




não há caminho.......



nem pessoas, nem almas



nem placas


não há nada além do terror banal


enquanto estoura no asfalto o calor do mundo.




vão dizer o quê?


que o universo está sem alma. que existe, hoje em dia, somente a carne. já seca e já velha. a carne que não reage.



digam.



DIGAM!



pois sou ainda a cores
frente ao meu singelo background branco.


e o pattern que escolho é o conjunto de cicatrizes que, com amor, colecionei.


classicamente. à moda antiga.








necessária.
suficiente.
mãe das situações.




hoje, contesto: falho?



falto?




tomo um longo banho. canto alguma coisa sem sentido no inglês que sei. me deito ainda com fome. e dormindo espero a alvorada.