22 julho 2009

Conversas com Beautiful Bird

Eu poderia ser a mulher do tempo. Diz.



(Veja bem, não estamos estabelecendo personagens. Essa pressa curiosa é o mais trivial à nós, extraterrestres.)

Bem verdade que aqui acaba a luz o tempo todo. E eu, guess what, abandonei estrada adentro-afora a pressão e o peso que era carregar o desejo e a insaciável sede do português encorpado; meu português eu que faço. É meu, é natureza minha. But they're still so charming... E eu aqui, tomo um gole, mastigo um insight que não vai dar em nada, uma banalidade qualquer, uma endoscopia. E ele a caetanear um "as a matter of fact" ao vivo, num brasinglês ondulado, londrino, com ginga (como pode?). O cara tem pés de veludo... Como pode? Só podia mesmo ser Caetano Veloz.

Veja: economicamente falando, prazer, je m'appelle banqueroute, mas ainda assim (fé!) acredito no bom gosto. O bom gosto é sempre salvador.

Foi muito, muito atrevido morder um ouriço, Beautiful Bird.

Admiro, Beautiful Bird, nossa coragem diária ao acordar, abrir os olhos e enfrentar a selva, cada vez mais hermética e louca; cada vez mais rápida e animalesca. Estão todos, Beautiful Bird, preocupados demais com o saldo bancário. Por que diabos realizar que somos animais de zoológico? Tão confinados quanto. E, Beautiful Bird, sou contra o sistema zoological. ZOO - LOGICAL.

Quero minha fatia...... meu pedaço justificável de solitude urbana.


No meio da concrete jungle, B.B... estamos fodidos. E eu quero meu mastro, quero minha bandeira, quero a porra do meu metro quadrado. Não estamos na China, porra! Quero meu direito de musicar lições morais que me enfiam goela abaixo todo santo dia. Oh, porca hierarquia! Foda-se. Gosto pra caralho de grana. Gostas não tu?

Estalar louco de dedos.. dopação dopação.. que doidêra, man..

Meus caros, devo informá-los. O jornal, amanhã, deve mentir.

Or to speak more elegantly.. viver é uma merdinha de faca de dois gumes, bicho... que caralho...

09 junho 2009

a equação sincera dos eixos

a vida anda doce como um quê
que ninguém aí sabe explicar
nem ti,
a quem dediquei minhas tempestades silenciosas
nem ti,
a quem dediquei e dedico meus domingos-de-manhã


as tias gordas não acreditariam. a ovelha negra fisgou um doutor.


quero entrar na desconfiguração do teu caos
quero me subalimentar com teus restos
te chamar quando bem entender
devorar o seu peito, que é largo

te oferecer a arte
malabarística
das incertezas

(e sei que aceitarás).

26 maio 2009

no mundo dos semtempo
semdinheiro
cai tudo em uma nota só
sem eixo
sem valsa

a musicalidade engole a alma
que engole a arte
que engole dragões
que cospem fogo
em mulheres
que vazam sangue
tristes

no mangue

23 maio 2009

Madrugada

Do fundo de meu quarto, do fundo
de meu corpo
clandestino
ouço (não vejo) ouço
crescer no osso e no músculo da noite
a noite

a noite ocidental obscenamente acesa
sobre meu país dividido em classes

(abril, 1971)



Ferreira Gullar

03 maio 2009

o muro

vivo
florido
alado



todos querem transpassar o muro
todos querem ser mais altos que o muro


nós queremos encher o muro de

flores
cores
sabores
livre poesia


mas,

o muro é

intransponível
inabalável

o muro é

louco & doce
na medida certa


o muro foi construído corretamente
por linhas tortas
por encontros e desencontros

no bixiga
em santana
no céu
ou quem sabe até

em vidas kármicas-passadas


o muro foi construído
em noites geladas de inverno
regadas à cocaína, cerveja, maconha
noitadas, grandes viagens


mas o muro também tem suas dores
seus desprazeres
seus dissabores



se esquecem que o muro
é o deus todo poderoso da rotina
exerce poder sob todo e qualquer cidadão


o muro flui num caos desconexo de palavras
ele sintetiza
por que não
o amor


o
amor
pleno



o muro sobrevive. continua florido.



o muro é um mundo cheio de cicatrizes.




mas não deixa de ser


(onipresente)


o muro







nós somos o muro.